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O rosário traz Deus à família e paz ao mundo

Não há muito tempo, na geração dos nossos avós, o terço rezava-se todos os dias. Acontecia quase sempre no final de jantar e reunia todos os elementos da família, desde as crianças de tenra idade aos anciãos. Era uma prática obrigatória, indiscutível, tal como comer ou trabalhar, mas foi-se perdendo, com as alterações dos modelos familiares e com a secularização da sociedade. Hoje esta oração, a «predileta» de João Paulo II e de tantos outros Papas, parece estar em desuso. Mas a importância que assume, do ponto de vista religioso e antropológico, impõe que se recupere, em família e nas comunidades.

Em entrevista à revista Mensageiro, a Irmã Ângela de Fátima Coelho, postuladora da causa de canonização dos pastorinhos de Fátima, citando D. José Policarpo, assinala que «a maioria dos portugueses aprendeu a rezar rezando o terço, o que faz com que esta oração seja um traço da nossa espiritualidade. E o facto de Nossa Senhora o pedir, em Fátima, torna-o uma missão do povo português».

«A oração é importante. A oração em família é cada vez mais importante, seja uma lectio divina, uma oração espontânea ou o rosário. O que importa é que as famílias rezem, recuperem a oração nas suas vidas», sustenta, acrescentando que, «na maior parte das famílias contemporâneas, famílias católicas, com fé, Deus deixou de fazer parte da família, deixou de estar, passou a ser Alguém que se visita na Missa de domingo, quando se tem tempo».

A Irmã Ângela refere que «a fé de muitas famílias está circunscrita à missa dominical, quando está. Esta perda de consciência da presença de Deus na família tem consequências» bem visíveis. Por isso, «é fundamental retomar a consciência de que Deus faz parte da família e que o encontro acontece através da oração, sempre que as famílias puderem, uma ou duas vezes por semana, conforme o tempo e as circunstâncias».

«Também neste aspeto temos de ser realistas, pragmáticos, objetivos. As famílias sem uma prática de oração não podem passar do zero para todos os dias», devem ir ao seu ritmo. O importante é criar um ritual de oração, comenta a consagrada da Aliança de Santa Maria.

 

O ROSÁRIO E OS JOVENS 

O rosário, em particular, é uma oração muito interessante para ser contemplada em família, «permite que os laços familiares se estabeleçam e a família se torne mais sólida», refere a Irmã Ângela, recomendando às famílias que deem vivacidade a esta oração, experimentem torná-la mais dinâmica, mais atrativa, por exemplo, pondo as crianças a ler passagens do Evangelho, a cuidar das meditações.

«Usem a criatividade, estabeleçam previamente um tempo para a oração. O terço não tem que ser longo, tem que ser rico», afirma, explicando que «o terço, mais que vocal, é contemplativo», tal como dizia São João Paulo II.

São João Paulo II confiava «à eficácia» da oração do terço «a causa da paz no mundo e a causa da família». Na Carta Apostólica “O Rosário da Virgem Maria”, menciona: «Oração pela paz, o Rosário foi desde sempre também oração da família e pela família. Outrora, esta oração era particularmente amada pelas famílias cristãs e favorecia certamente a sua união. É preciso não deixar perder esta preciosa herança. Importa voltar a rezar em família e pelas famílias, servindo-se ainda desta forma de oração».

No texto, João Paulo II realça que «a família que reza unida, permanece unida» e o «santo rosário» é «uma oração onde a família se encontra». Fala ainda da importância de «rezar o rosário pelos filhos e, mais ainda, com os filhos, educando-os desde tenra idade neste momento diário de ‘paragem orante’ da família».

João Paulo II considera que o facto de o rosário parecer «uma oração pouco adaptada ao gosto das crianças e jovens de hoje» tem a ver com «a forma muitas vezes pouco cuidada de o rezar. Ressalvada a sua estrutura fundamental, nada impede que a recitação do rosário para crianças e jovens, tanto em família como em grupos, seja enriquecida com atrativos simbólicos e práticos, que favoreçam a sua compreensão e valorização».

O Papa santo acreditava que se o rosário for bem apresentado «os próprios jovens serão capazes até de surpreender os adultos, assumindo esta oração e recitando-a com o entusiasmo típico da sua idade».

O rosário, segundo João Paulo II, é também «uma oração orientada para a paz, precisamente porque consiste na contemplação de Cristo, Príncipe da paz e ‘nossa paz’» e «pelos frutos de caridade que produz». Em suma, «torna-nos construtores da paz no mundo, pelas características de petição insistente e comunitária».

 

UMA ORAÇÃO UNIVERSAL

O rosário era a oração preferida de São João Paulo II. «Oração maravilhosa na sua simplicidade e profundidade. Nesta oração repetimos muitas vezes as palavras que a Virgem Maria escutou da boca do anjo e de sua prima Isabel. A estas palavras toda a Igreja se associa», dizia.

Para o antecessor de Bento XVI, «o nosso coração pode encerrar nestas dezenas do rosário todos os atos que compõem a vida de cada indivíduo, de cada família, de cada nação, da Igreja e da humanidade: os acontecimentos pessoais e os do próximo e, de modo particular, daqueles de quem mais gostamos. Assim, a simples oração do rosário pulsa no ritmo da vida humana».

A Irmâ Ângela destaca esta universalidade do rosário na Igreja. A propósito, recorda um momento marcante na sua vida. Aquando da renúncia de Bento XVI ao pontificado, estava em Roma, a fazer o curso de postuladora romana. Quando se iniciou o período de sede vacante, decidiu ir para a Praça de São Pedro, rezar pelo próximo Papa. A praça ia-se enchendo de gente e, para não estar sozinha, decidiu aproximar- -se de um grupo de americanos que avistou. Estavam a fazer uma lectio divina em que a palavra bíblica meditada era a passagem do Evangelho em que Cristo diz a Simão Pedro: «Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja». Um texto que considera «lindíssimo». Mas não conseguiu envolver–se na oração. Do outro lado da praça, estava um outro grupo. Decidiu juntar-se a este último. Quando percebeu que falava francês, desanimou, porque não dominava a língua.  Entretanto, ouviu «je vous salue Marie, pleine de grâce». Percebeu logo que era o terço e o terço sabia rezar. Ficou. Curiosamente, com o passar do tempo, este grupo cresceu imenso. «Era a Avé-Maria em francês, a Santa Maria em português, em espanhol, em polaco, em alemão». Todos rezavam na sua língua, mas todos sabiam o que estavam a rezar. A língua não foi uma barreira à oração, porque o terço tem esta particularidade: é universal. O grupo de americanos manteve-se sempre com os mesmos elementos.

Quando perguntam à Irmã Ângela porque se deve rezar o terço, ela responde «porque sim, porque exprime a obediência a Deus através da Virgem Maria». Porque «o Rosário é a oração que faz Igreja, que congrega».

No que respeita à obediência, a Irmã Ângela dá como referência os pastorinhos. Rezavam sempre o terço em família e tinham um grande sentido de obediência, como era típico das crianças daquela época. Quando os pais mandavam rezar, rezavam. Mas também queriam brincar. Por isso, arranjaram uma estratégia que consistia em rezar dez vezes “Avé-Maria”, “Santa Maria” e solenemente “Pai-Nosso”. Apenas o enunciado. Quando começam as aparições e Nossa Senhora lhes pede que rezem o terço todos os dias, eles imediatamente começaram a rezar as orações completas. Por obediência, mudaram a forma de rezar, aderiram ao pedido sem questionar. «Esta é a grande experiência do rosário, exprime a nossa obediência a Deus», aponta a postuladora e vice-postuladora da Causa de canonização dos Pastorinhos.

A Irmã Ângela lembra que Nossa Senhora apareceu seis vezes, na Cova da Iria, e seis vezes repetiu: rezem o terço todos os dias. Este pedido não pode ser esquecido, sobretudo no país onde foi feito reiteradamente. Para além da sua particular eficácia em trazer Deus à família e paz ao mundo.

 (in Mensageiro – Maio 2016)