Até os Apóstolos tiveram medo quando, no monte Tabor, se sentiram no meio da nuvem, embora a nuvem fosse, muitas vezes, na Escritura, presença de Deus, símbolo da sua acção. Mas a nuvem pode-se entender também como acção do príncipe das trevas que, com fina ou grossa poeira, nos vai cegando os olhos da alma e do coração. Cegueira espiritual, nascida do orgulho, da soberba, do ódio, do ciúme, da inveja, do rancor. A paixão cega, como poeira que dificulta a visão de Deus, de nós, dos outros, do pecado instalado em nós e no mundo.
Neste tempo favorável da Quaresma precisamos de abrir os olhos da alma para nos darmos conta do pecado e da misericórdia, mas a poeira da vida e do maligno não deixa, quer impedir a abertura ao dom de Deus, ao amor do Pai, à graça que converte e salva. E a cegueira é hoje de tal modo que, para muitos, parece já não haver pecado, já se pode fazer tudo, dizer tudo, sem escrúpulos de matar, de roubar, de se promiscuir. E o pior pecado do nosso tempo é a falta de consciência do pecado. Sem esta consciência, sem esta luz do alto, não nos vemos como Deus nos vê, não tomamos consciência do nosso pecado. E o pior cego é o que não quer ver.
Mas a poeira que nos impede de nos sentirmos e vermos pecadores, necessitados de perdão, também não nos deixa abrir o coração à misericórdia. Para quê a misericórdia, para quê o Salvador, para quê o Médico Divino, se não nos damos conta da nossa cegueira, do nosso pecado, da alegria do perdão, da divina misericórdia? Não sabemos ver, vislumbrar a diferença entre a noite e o dia, entre o amor e o ódio, entre a vida e a morte, entre a liberdade e a escravidão, entre o pudor e a impureza, entre a dignidade humana e a miséria do pecado. Precisamos de luz, como o facho ardente que seguia à frente do Povo eleito na travessia do deserto para lhe indicar o caminho a seguir. A terra prometida também espera por nós. Precisamos de caminhar para ela.
A luz da Páscoa, a luz do Círio Pascal, que é Jesus Cristo, precisa de estar em nós, nos caminhos da nossa Quaresma para nos iluminar a inteligência e o coração, para iluminar nossos caminhos, nossas opções, nossa mudança de vida. Se essa luz divina não actua em nós, a poeira do príncipe das trevas vai fazendo seus estragos, vai-nos metendo em becos de pecado, de violência, de prazer fútil, de soberba, de guerra, de maquinações de mal, de cedência a paixões desordenadas. Só Aquele que é a Luz pode iluminar nossas vidas e nossos caminhos de conversão quaresmal. Só Ele pode ajudar a ver por onde caminhar para atingir a Páscoa festiva e gloriosa, como verdadeira passagem na nossa vida, na vida da nossa família, da nossa paróquia, no local de estudo, de emprego, de divertimento, em todo o lugar em que se jogar uma opção livre pelo bem e pela verdade, pelo amor e pela justiça.
Não nos deixemos cativar pela poeira que suja e cega, que arrasta para o precipício. Não nos deixemos iludir por aquilo que, apesar de reluzir, não é oiro verdadeiro, não é o tesouro da vida, Jesus, nosso Salvador. Em oração, em exame de consciência peçamos a graça de distinguir bem o que agrada a Deus e é da sua vontade, saibamos assumir a graça da vida e do amor que nos vêm do Céu. Saibamos não nos deixar enganar, no meio da poeira do mundo, pela sedução que leva ao mal, ao pecado, à destruição da santidade. A nuvem de poeira é mesmo densa e tenebrosa, faz-nos mal a nós e aos outros. Cuidado com ela. Que a Luz que é Cristo nos liberte e ajude a viver a Quaresma como caminho de libertação.
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